SENHORA
APARECIDA
PADROEIRA DO
BRASIL, que veio das águas do Rio Paraíba do Sul, em 12 de um Outubro Rosa lá de 1717, há 4 séculos, praticamente? Mais uma vez, políticos da ultradireita ou da extrema-direita como são mais conhecidos a atuação de segmentos radicais, especialmente alguns pastores, do mundo evangélico, atacam uma Santa que muito bem representa a gente brasileira em sua grande maioria, inclusive quanto à pretitude da maioria da população, católica ou não.
O fato ganhou maiores transtornos porque um candidato da extrema-direita Flávio Bolsonaro sinalizou que tiraria a condição de Padroeira do Brasil de mencionada santa.
Daí, vários embates surgiram imediatamente e o candidato do PL (Partido Liberal), que será derrotado no domingo, 04-10, como indicam sérias pesquisas eleitorais, fora do manipulador 'pesquisismo' que representa os diversos segmentos das elites brasileiras, pelo candidato petista, Lula da Silva, recuou e disse que não faria isto.
Mas... a ninguém convenceu e ele está bem acuado.
A violência contra a santa padroeira do Brasil vem de há muito tempo e de tempos em tempos ressurge no horizonte do ódio religioso de alguns pastores. Mesmo a violência sendo condenada pela maioria da população evangélica brasileira, que não quer saber de violência alguma, ainda mais contra a devoção da maioria da população deste Brasil.
Vários estudiosos do tema, acreditam que a violência decorre das simbologias concretizadas pela santa às populações brasileiras e seu sincretismo religioso.
Como o seu surgimento, em um rio, em rede de pobres pescadores, especialmente sua cor preta, representando a cor da maioria de nós brasileiras e brasileiros.
Lendo a respeito de manifestações contra a violência, há diversos textos interessantes. Um deles, de Célio Turino, excelente, você poderá ler e imprimir a seguir:
"POR QUE A
ULTRADIREITA NÃO TOLERA NOSSA SENHORA APARECIDA
Chegou em chegança, como a Folia de Reis e as
Festas do Divino, as mais generosas e utópicas. Confunde-se com a própria
identidade nacional. Articula fé e colaboração comunitária, aproxima matrizes
católicas, afro-brasileiras e profanas. Tornou-se negra. Por isso a odeiam
tanto.
Um encontro pequeno em que cabe um país inteiro.
Foi em outubro de 1717, números que somam o infinito. Três pescadores, João
Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, gente humilde, lançaram suas redes nas
águas do rio Paraíba do Sul em busca de peixes. A pesca, porém, nada trouxe.
Até que a rede voltou com o corpo de uma pequena imagem de barro cozido, sem a
cabeça. Lançada novamente, alguns metros adiante, encontraram a cabeça que se
encaixava perfeitamente ao corpo de mulher. Depois disso, a pesca farta.
– Um milagre! – disseram.
Assim começou uma das mais profundas histórias
culturais do Brasil, não a história dos conquistadores, reis, cardeais ou
generais, mas a história de pescadores e de uma imagem resgatada do fundo do
rio. Não era uma imagem inteira, perfeita, pronta para ser venerada, não vinha
coberta de joias, era uma Nossa Senhora quebrada, escura como a cor dos
mamelucos, preta como a cor dos escravizados. Surge o mistério de Aparecida. O
barro antes do nome, vindo do rio dos pobres para alimentar a casa dos pobres.
Só depois surgiu o santuário. Nasceu primeiro como devoção de poucas famílias,
depois, de um povo inteiro.
Uma imagem de terracota em meio a terras barrentas.
O tempo, a água, o lodo e a fumaça das velas escureceram suas feições. Negra
Santa Mãe de Jesus. Essa negritude, ainda que tenha uma explicação material,
ganhou o imaginário brasileiro com uma força que ultrapassa a matéria. A
Senhora das águas passou a carregar também a memória dos indígenas, dos negros,
dos mestiços, dos pobres, dos caipiras, caiçaras e piraquaras, dos imigrantes,
camponeses, professores, artistas e operários, que, durante séculos, fizeram
este país sem que o país lhes reconhecesse a autoria.
Aparecida não veio por
dogmas religiosos, veio como expressão do povo, acolhida pela devoção de nossa
gente. Uma diferença essencial entre uma religião institucional e a
religiosidade popular, enquanto a primeira organiza a doutrina a segunda
inventa caminhos. Desse jeito meio torto, quebrado, o sagrado continua
respirando pela imagem de uma mulher, preta, pobre e acolhedora.
A imagem foi levada para uma casa de pau a pique e
ali, diante dela, começaram as orações. Depois vieram o pequeno oratório, os
agradecimentos, as promessas, as velas, os cantos. A devoção nasceu do povo,
cresceu porque nossa gente reconheceu naquela pequena figura alguma coisa de si
mesma. Veio “de baixo para cima”, como as grandes expressões da cultura
nacional.
Chegou em chegança, como a Folia de Reis, que caminha pelas estradas
levando a bandeira, a música e a memória do nascimento; como nas Festas do
Divino, reunindo comunidade, comida, cortejo, promessa e partilha que faz dela
a mais generosa e utópica de todas as festas.
O Círio de Nazaré também chega
pelas águas amazônicas, infinitas, e transforma Belém em caminho de fé e
solidariedade. Está em tantas festas bonitas de nosso Brasil, ultrapassando a
dimensão estritamente religiosa e se confundindo com a própria identidade
nacional; articula fé e colaboração comunitária, aproxima matrizes católicas e
afro-brasileiras numa mesma celebração, junta muitas religiosidades, e até o
profano.
Não são apenas festas religiosas, são maneiras de um povo lembrar que
existe. Devoção é uma forma de coletividade e a devoção à Nossa Senhora
Aparecida passa por todas elas; e além. Está nos nomes de Marias e Aparecidas;
as donas “Cida” de todas as religiões e Igrejas.
Procuro escrever com poesia e respeito, mas também
como pensador da cultura e historiador. O marco legal do patrimônio cultural
imaterial brasileiro reconhece a dimensão das celebrações e saberes religiosos
como formas de expressão e modos de fazer de nosso povo. De todos os povos,
como confirmam resoluções da Unesco.
São expressões que não vivem porque foram
congeladas, mas porque continuam sendo praticadas, recriadas e transmitidas.
Amorosamente. Patrimônio Cultural não é somente aquilo que uma sociedade
monumentaliza em pedra, é também aquilo que ela aprende a guardar no corpo, e
que fala do fundo d’alma. Aparecida foi guardada no corpo brasileiro,
independente de religião.
É o sagrado feminino tatuado no corpo de quem
caminha, no joelho de quem se ajoelha, na mão de quem acende a vela, na voz de
quem canta, no ombro de quem carrega a bandeira. Está no coração daquela gente
que provavelmente não saiba explicar teologicamente o que seja um dogma, mas
sabe muito bem onde mora a sua esperança.
Como Patrimônio Cultural Imaterial, Nossa Senhora
Aparecida é maior do que uma questão confessional, ela pertence ao imaginário
brasileiro. Pertence à mulher que acende uma vela e pede proteção para o filho,
ao homem que caminha quilômetros pagando uma promessa, à avó (à minha avó!!! –
e à tua, e à tua…) que ensina ao neto uma oração. Ao caminhoneiro que leva sua
pequena imagem no painel e à família que o aguarda com uma fotografia diante do
altar. Nossa Senhora Aparecida é do romeiro que chega cansado, do trabalhador
que deposita uma flor.
É daquele que acredita, e também daquele que, em não
acreditando, reconhece na devoção do outro uma parte da história do país. Será
sempre eternizada como a Padroeira do Brasil porque a memória, e a devoção de
nosso povo, merece respeito.
Maria não aparece como a mulher poderosa dos
palácios, é a mãe que acolhe e jamais abandona o filho e a filha. A presença
que permanece quando quase tudo falta. Mãe encontrada nas águas; pode haver
maior beleza que isso? O rio entregando ao povo aquilo que parecia perdido, uma
imagem quebrada que se torna inteira nas mãos de quem a acolhe. É como se o
Brasil, país de tantas quebraduras, reconhecesse naquela pequena imagem o seu
próprio retrato. Um país que também nasceu aos pedaços.
E foi se juntando,
mesmo em meio a tanta maldade, explorações e violências. Esse povo somos nós
que nos juntamos por debaixo, na vida caipira ou cafone, no jeito
sertanejo ou periférico, das florestas ou das cidades. Santo, encantado, festa,
batuque, promessa, viola, terreiro, procissão, feira, cozinha e estrada… Tudo
isso num país que nunca coube direito nas molduras que lhe deram. Aparecida
também não cabe na moldura.
A grandeza da “Mãezinha do Brasil” não pede
riqueza ou títulos de nobreza. Ela é grande porque recebe a promessa do pobre,
sua casa é grande porque a porta permanece aberta, para todos e todas; os
excluídos à frente. E é justamente essa grandeza e generosidade que a torna
incômoda para projetos de sociedade baseados na separação, no desprezo, nos
ódios e no medo. De tempos em tempos, poderosos a desafiam.
Como o cavaleiro
que zombou da fé dos romeiros e procurou entrar na Igreja com seu cavalo. A
pata se prendeu na pedra e o derrubou. Séculos depois foi quebrada em duzentos
pedaços, e novamente reconstituída, caco a caco. Chutada justamente em seu dia,
12 de outubro de 1995, num programa de televisão sob o nome de “Despertar da
Fé”. E o povo, de muitas religiões, se levantou em protesto. Em 2007, um
parlamentar com Bíblia na mão tentou alterar a própria formulação legal
associada ao título de Padroeira do Brasil; a proposta foi arquivada no ano
seguinte.
Mas a vontade de quebrar a espinha da devoção popular segue presente.
Segue nos ataques e afrontas, nas algazarras em frente à celebração, como em
2022; nas panfletagens e queima de imagens, não só da fé católica, como também
às religiões de matriz africana e sincréticas. Tentam impor o “Domínio” em nome
da religião em fusão com a política. Avançam um passo, recuam em outro, se
desdizem, se desmentem para mentir de novo. E avançam; sorrateiramente.
Há fundamento nas preocupações dos devotos à
“Santinha”, e daqueles que a respeitam pelo que significa. Os que a atacam,
mesmo recuando, querem transformar aquilo que pertence à memória comum em
instrumento de separação. De há uma década estão querendo cindir o Brasil pelo
ódio.
Como parte dessa Teologia do Domínio, agridem a religiosidade brasileira em
suas melhores expressões. A devoção popular é uma religião de comunidade, não
de individualismo, por ela a bandeira precisa passar de mão em mão e a comida
tem que ser repartida, a porta está sempre aberta e a promessa precisa ser
cumprida porque o santo caminha. É uma fé que se realiza no encontro com o
outro. Quando atacam a Padroeira do Brasil é nossa alma que se perde.

O povo sabe, mesmo quando não sabe dizer, que santo
não tem dono. Nem Nossa Senhora, nem a fé, nem o Brasil. Por isso o
inconformismo, até daqueles que não seguem a religião católica, quando grupos
extremistas aliados ao fundamentalismo religioso tentam impor o seu domínio.
Buscam mexer nos símbolos que o povo construiu durante séculos, retirar um nome
daqui, acrescentar uma palavra, decidir quem pode ou não pode chamar aquela Mãe
de sua. Como se uma devoção nascida de pescadores pudesse ser redesenhada num
gabinete e o sentimento popular pudesse caber numa caneta de presidente. Querem
fechar a porteira do sagrado. Mas a resposta do povo brasileiro não será dada
com discurso, como não foi com discurso ou dogmas que ergueram a devoção. Será
dada nas ruas e praças, na festa e na procissão, na cozinha, no terreiro, na
capela, na estrada e no silêncio da oração. Na rede social também houve
resposta, embora aí tudo se embaralhe mais depressa, vindo acompanhado de
deturpações, censura e manipulações (de quem se diz contra a censura e das
BigTechs que manipulam os cordões). O jogo é pesado.
Mas, para vergar a fé em nossa “Mãezinha”, há uma
diferença enorme entre uma fé que acolhe a pobreza e uma fé utilizada para
justificar a riqueza e o poder. Entre uma mãe que recebe todos e uma religião
que escolhe quem merece pertencer, existe a vela acesa na casa simples e Nossa
Senhora Aparecida a rogar pelo Brasil!
Contra esse mundo de indivíduos isolados,
permanentemente excitados pelo desejo de ter, competir e vencer, mantém-se viva
a velha religiosidade popular. Por isso querem vergar a fé. Diante da Santa Mãe
de Deus, paramos, ajoelhamos, esperamos e cantamos. Nossa Senhora Aparecida
ensina a dar muito mais que receber, ensina a caminhar junto, fazer comida para
quem chega e acender uma vela para alguém que nem conhecemos. Isso não é pouco.
É tudo.
O capitalismo pode vender quase tudo, mas ainda
encontra dificuldade diante daquilo que não nasceu para ser vendido, como a
promessa e a bênção. Nossa Senhora Aparecida continua sendo uma espécie de
espinha dorsal da espiritualidade de nosso povo, independente da religião que
professem.
Por isso é expressão da cultura, não porque todos os brasileiros
tenham a mesma fé. Não têm, e a liberdade religiosa é parte essencial da nossa
vida democrática. É parte de nossa cultura porque sua presença atravessa
classes, regiões, gerações e fronteiras. A própria Igreja Católica reconhece
que o título de Aparecida foi dado e acolhido pelo povo, associando sua devoção
à solidariedade, à fraternidade e à acolhida dos pobres. Ela é de todos. Uma
mãe negra encontrada por pescadores. Que coisa mais brasileira!
Nossa Senhora Aparecida não desceu do céu numa
carruagem de ouro, veio do rio, presa numa rede de pesca. Não foi encontrada
inteira, foi encontrada quebrada. Essa é a razão de tanta gente se reconhecer
nela. Somos um país encontrado aos pedaços, país que ainda precisa juntar sua
cabeça ao seu corpo, nossa memória ao nosso futuro, riqueza à justiça, fé à
humanidade, tecnologia à ternura. Nossa Senhora Aparecida é muito mais que uma
imagem, é a forma popular de dizer que ninguém se salva sozinho.
A rede
trouxe a imagem.
A imagem trouxe a comunidade.
A comunidade trouxe a festa.
A festa trouxe a memória.
E a memória, quando permanece viva, torna-se
patrimônio. Não é patrimônio morto, guardado atrás de um vidro, é patrimônio
que chora, perdoa e retorna. Todos os anos. Enquanto houver alguém em romaria,
alguém que acenda uma vela por alguém que sofre, haverá uma pequena Nossa
Senhora emergindo das águas para as mãos do povo. Mãe não divide seus filhos,
chama para a mesa, e em mesa de Mãe sempre cabe mais um. Até o Brasil inteiro."
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Texto de Célio Turino - publicado 28/09/2026 às 17:42,
em: https://www.cfemea.org.br/pt/?view=article&id=11765:por-que-a-ultradireita-nao-tolera-nossa-senhora-aparecida&catid=560